quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fuga

Suicidei-me ontem no fim da tarde,
quando os pássaros recolhiam alegremente seus cantos
para em um canto se aquietarem...
Suicidei-me ontem quando, ao olhar o pôr-do-sol,
desejei com ele ir morar
e bem longe na beleza do infinito sossegar.
Suicidei-me ontem quando o peso do mundo caiu sobre meus ombros
e não pude mais andar, porque afundava a cada passo
e era preciso parar...
Suicidei-me ontem quando vi minha cidade assolada
pelo medo, violência e corrupção
praticadas por pessoas sem caráter, mas com muito poder nas mãos
Suicidei-me ontem, depois do noticiário,
quando percebi que o mal não tem saída
porque não tem emprego, saúde, segurança e educação
a política é suja e o salário mínimo
não paga tamanha indignação
Suicidei-me ontem quando vi que não posso mais viver
vendo o menino no lixão
em busca de um pão ou qualquer outro lixo
que lhe sirva de alimentação...
Também não posso mais ver o velho catador
a andar descalço para garantir um salário
sem se importar com a chuva, frio ou calor.
Suicidei-me ontem quando percebi que já havia morrido
há muito tempo,
fui morrendo aos pouquinhos
quando desisti de lutar
quando perdi a fé
na honestidade
na humanidade
na sociedade...
Suicidei-me, mas já estava morta
porque viver significa morrer quando não se pode mais lutar!

domingo, 8 de abril de 2012

Idiossincrasia


A visão turva lançada no meio da lama de pensamentos
distancia-se da pureza da alma, mas aproxima as palavras...
As perguntas sem respostas pairam, a sangrar a mente
de quem anseia pela verdade nua, 
desprovida das facetas ilusórias da vida...
Onde está a verdade que liberta a alma da lama 
que é o desvario da mente?
Acaso percebeste que  alma se confunde com lama
sem o português rebuscado das palavras?
Basta trocar as letras de lugar e eis que ALMA vira LAMA
No improviso peculiar das almas amedrontadas...
Assim, na lama em que vivem certas almas
no conflito constante entre o ser e o nada
será preciso de vez em quando aparecer “de alma lavada”!