terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Tentativa de homicídio

Foi a visão dos infernos!
Aquele monstro abrindo as asas e partindo em minha direção, numa incrível desproporcionalidade de forças. Incrível  e injusta,  afinal não possuo capacidade de voar. Num inesperado instinto de sobrevivência, porém desprovido de qualquer coragem, saquei  o inseticida que fica em meu criado mudo, que mudo presenciava a cena do crime. Mirei a barata. Penso que se fosse uma arma de fogo, teria descarregado, tamanha foi a quantidade disparada naquele corpo.  Vi-me no tribunal das baratas sem o recurso penal da legítima defesa. Mas não acredito que o monstro tenha sido totalmente eliminado porque o corpo não apareceu. Sem corpo não há crime. Pior, não há morte. A barata agora está por aí, num ardiloso plano de vingança contra mim. Como poderei voltar ao sono singelo das almas boas, se não sei o que tramam contra mim. Imagino agora uma legião de baratas reunidas bolando as estratégias do ataque. Nunca mais voltarei a dormir. Observo. No quarto tudo parece igual, apenas o criado mudo parece estar ciente do ocorrido, mas este não diria nada em minha defesa no tribunal. Também não seria necessário, pois nesses tempos de julgamento de Bruno e Macarrão, aprendi que sem corpo não há crime.  Pelo menos no meu caso, as evidências não são tão contundentes como as que invocaram contra eles. O que eu pensava se concretizou, pelo menos parte do plano das baratas. Enquanto eu escrevia esse texto, algo veio sobre mim, caindo pesado e frio sobre meu corpo. Pulei da cama ao mesmo tempo em que travava uma luta corporal com uma barata, que me pareceu durar toda a eternidade. Meus gritos ecoaram na noite silenciosa. Ela venceu. Fugi do quarto. Agora já passam das quatro horas da manhã e me lembro triste que deveria ter ido àquele aniversário que os amigos me convidaram; ou visto aquele filme que iria reprisar hoje; terminado de ler a biografia do Eric Clapton que interrompi para ler outro livro. Mas não. O destino me levou a um confronto quase fatal, expondo a minha fragilidade diante daquele ser. Sinto-me derrotada por ter que aguentar todas as conseqüências de uma noite em claro. A barata venceu mais uma vez. Não precisou de uma legião, apenas uma.  Não necessitou de nenhuma arma para me derrotar, utilizou somente os recursos que a natureza lhe deu, apenas a sua capacidade de voar. Quem sabe eu aprenda com a barata a utilizar melhor os meus recursos interiores. 


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Paradoxos

Eu não acreditava no vento
Até vir o temporal  avassalador;
Eu não acreditava na morte,
Até  conhecer a ausência permanente;
Eu não acreditava na maldade,
Até me magoarem profundamente;
Eu não acreditava que as feridas cicatrizavam,
Até novas feridas desabrocharem;
Eu não acreditava na distância
Até conhecer a saudade;
Eu não acreditava no amor
Até conhecer você;
Eu não acreditava no ódio,
Até conhecer você;
Eu não colecionava dúvidas,
Até conhecer você;
Eu não cultivava desejos,
Até conhecer você;
Eu não conhecia a felicidade,
Até conhecer você;
Eu não cultivava esperanças,
Até conhecer você,
Eu não havia desistido da vida
Até conhecer você....