terça-feira, 3 de julho de 2012

Choque de realidades

Não me siga,
por onde ando você não consegue me acompanhar.
Sou dos guetos periféricos e assombrosos,
das masmorras e dos muros pichados.
Passeio por entre os perigos,
sem temer a escuridão das noites frias...
Não, você não conseguiria ver o que vejo
e nem saber o que acontece
por dentro das periferias...
Convivo com o inimigo
que esqueceu de ser menino

e decidiu ser bandido,
talvez porque assim consegue ser ouvido
e até mesmo temido.
Na cadeia é humilhado,
mas lá fora faz um estrago,
manda a pessoa ajoelhar e implorar por sua vida,
a mesma vida que ele perdeu,
passando a odiar a sociedade a qual nunca pertenceu.
Ele mataria alguém por menos de um real
pois a estimativa de valor que faz
é o valor que a sua vida tem
de não valer nada pra ninguém.
Estou no meio da escória,
no meio de quem já perdeu a humanidade
por saber que o resto da humanidade,
há muito tempo dele se esqueceu...
É através dessa realidade que eu enxergo,
por isso você não consegue me acompanhar,
exige de mim um sorriso que eu não consigo dar.
Uma alegria difícil de expressar.
Talvez porque ao longo desse caminho
também passei a odiar.
Odeio toda desigualdade e injustiça,
toda impotência diante da realidade
que eu não consigo mudar.
Por isso fique distante de mim
por que eu também passei a odiar.
Sou incapaz de ver esse mundinho perfeito
que você insiste em me apresentar,
de casaizinhos bonitos saindo para jantar,
de pais e mães sorridentes indo viajar.
de crianças alegres em um parque a brincar.
Não, eu não faço parte desse mundo,
meu mundo é feito de outras realidades
Que você jamais iria suportar.
Fique longe de mim, não tente me mudar,
se estou doente, não há como remediar.
Fique longe de mim, assim quem sabe
eu possa um dia me reinventar!


Um comentário:

  1. Às vezes tenho medo das pessoas que deram palavras aos versos deste seu poema, minha Flor de Lis! Mas garanto: já andei com muitas dessas pessoas... reconheço os lugares por onde passam seus versos! Do grito do gueto surgem palavras novas; de novas palavras, novos lugares; de novos lugares, visitados por novas esperanças, novas pessoas se criam e sobrevivem... como expressam os últimos versos seus: "...assim, quem sabe, possamos nos reinventar"... Mas sozinhos poucos conseguem, né?! Beijos!

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